A arte e o Legado de Dulcina de Moraes
Fundadora e Presidente Perpétua da Fundação Brasileira de Teatro

Eu nasci no teatro para o teatro, do teatro, e me sinto felicíssima com isto. O teatro me deu todas as grandes alegrias da vida, todas as emoções. Eu adoro o teatro e acho que tudo que está acontecendo é válido, validíssimo. É transição, movimento, caldeamento, efervescência, e eu espero as grandes coisas que vão surgir. Creio acima de tudo, na eternidade do teatro. O teatro permanecerá e nós com ele. (Dulcina de Moraes, 1981, para o jornal O Globo)

[Dulcina] traz consigo, estreitamente ligada, uma grande arte da história dos artistas que vinham da Europa para as Américas, através de uma família que, talvez, há 10 gerações, foi sempre dedicada à arte teatral. Tinha que ser artista. Estava no sangue. (Bricio de Abreu, 1963)

Dulcina de Morais, pra mim, a figura mais importante do teatro brasileiro deste século (Fernanda Montenegro, Jornal do Brasil, 1986)

Dulcina de Morais, nascida em 1908 falecida em 1996, foi atriz, diretora, produtora, professora, idealizadora e fundadora da Fundação Brasileira de Teatro. Nascida de “improviso” em um entreposto da trupe de teatro errante de seus pais é não somente filha como neta de atores. Em uma tournée da companhia de teatro de seus pais, ao ser negada a hospedagem à sua mãe em um hotel comum, por estar em trabalho de parto, todos os colegas se recusaram a se hospedar no espaço e uma comoção se propagou na cidade de Valença no Rio de Janeiro. Uma casa foi emprestada à trupe por uma figura notória da cidade e toda a população se envolveu: uns levaram, móveis, outros lençóis e assim Conchita de Morais deu à luz à Dulcina.

A trajetória desta atriz que estreou nos palcos aos três meses de idade (para o espanto da platéia que acreditava que fosse uma boneca, até quando Dulcina irrompeu num verdadeiro choro) confunde-se com a própria história do teatro brasileiro. Estréia na companhia de Leopoldo Fróes aos 17 anos, sendo aclamada como grande promessa. Alcança o reconhecimento com a peça Amor de Oduvaldo Viana, em 1934. Forma a sua própria companhia ao lado do marido, também ator e empresário Odilon Azevedo em 1935. Alcança o auge do sucesso com a peça Chuva em 1945. Firma sua sede no centro do Rio de Janeiro, o Teatro Dulcina, até hoje ativo, pertencente a Funarte. Promove os festivais de teatro “Poeira de Estrelas”, montando peças teatrais reunindo grandes atores como Paulo Autran, Bibi Ferreira, Marília Pera. É a primeira a montar grandes autores da dramaturgia universal no Brasil, como Federico García Lorca e Bernard Shaw.

A trajetória de Dulcina é recheada de mitologias e muitos a conhecem associada à idéia de um sonho, o sonho de integração dos artistas e do Teatro Brasileiro. Contudo, Dulcina de Moraes foi para além do sonho, uma grande realizadora de conquistas para a categoria dos trabalhadores de artes cênicas no país. Dulcina de Morais foi uma artista que perpassou todo o século XX no teatro brasileiro. Sua luta pelos direitos dos artistas e pelo seu reconhecimento como trabalhadores são conquistas que permaneceram. Graças a ela atores ganharam direito a uma folga semanal. Graças a ela o trabalho de atuação foi diferenciado da depreciação e regularizado na carteira de trabalho. Sua maior realização a Fundação Brasileira de Teatro, permanece hoje 22 anos após a sua morte, mantendo a Faculdade de Artes Dulcina de Moraes e os Teatros Conchita e Dulcina de Moraes.